Gibi Raro
     

UM COLECIONADOR DE GIBIS E SONHOS



Ao invés de roupas, ele levava consigo, para onde ia, uma mala de livros e revistas; era esse o jovem colecionador de gibis Paulo Sérgio Pinheiro da Silva, quando minha mãe, Maria da Conceição Machado, o conheceu em Porto Alegre (RS), tentando a vida. Um homem simples, convicto, idealista e de uma inteligência ímpar, que sempre colocou seus princípios acima dos valores materiais e que viveu a sua verdade, intensamente. Com seu desapego, acumulou muito mais vivências e conhecimento do que bens materiais, e sempre viveu para dividir e compartilhar tudo aquilo que ganhava.

Seu primeiro gibi, do Batman, de 1949, ganhou do pai, Florisbelo, ainda criança, quando havia quebrado o braço, e a partir daí nunca mais largou esse hobby. Dessa experiência que poderia ter sido ruim, além da paixão pelos gibis, aprendeu a fazer tudo com ambas as mãos, desenvolvendo a habilidade de ser bidestro. Tarzan e Zorro passaram a ser alguns de seus heróis, que realizavam as suas aventuras imaginárias. Ás vezes, o dinheiro era escasso para a comida - quem veio do interior sabe o quanto muda o custo de vida na cidade grande - mas ele sempre arranjava um dinheirinho, economizado junto com minha mãe, para comprar aquele exemplar que não podia faltar na sua coleção. E viajou, conheceu vários estados do Brasil, como São Paulo e Bahia, apenas negociando gibis, cultivando essa paixão e fazendo mais amizades.

Quando vieram os filhos, não podia faltar uma homenagem aos quadrinhos, assim nasceu Naiara, do gibi “A Filha do Drácula”. Os demais também tiveram nomes que retratavam um pouco desse amor pela arte, Odara, do filme, O Homem das Estrelas, Morgana, da lendária fada, e Vandré, do talentoso cantor de “Pra não dizer que não falei de flores”.

E assim, os gibis sempre foram seus companheiros inseparáveis, assim como os livros e a música, quando o violão passou a fazer parte dessa bagagem. Uma bagagem não de utilidades, mas de aprendizado e de paixões verdadeiras.

Voltando a Tapes, Paulo Sérgio retomou seu trabalho como repórter na Rádio Tapense, onde atuou durante dez anos e construiu um trabalho sério e único de divulgação na comunidade. Nesse tempo, gestou um sonho, o de criar um jornal da cidade, que perdurasse e viesse a retratar os anseios da comunidade tapense. E esse sonho se concretizou com a criação do jornal “A Gaivota”, que se consagrou como um importante veículo de comunicação de Tapes. Na época, era o único jornal do município e, diferente de outras tentativas que se iniciavam visando ao lucro das eleições e em seguida se extinguiam, este jornal manteve-se, independentemente das crises ou das dificuldades, com a constância e a seriedade que sempre nortearam o trabalho do seu criador.

Concomitantemente ao jornal, Paulo Sérgio nunca parou com as suas coleções, que se diversificaram cada vez mais, os gibis de Faroeste estavam entre os seus preferidos, e assim ele foi criando pastas com todo tipo de material que saía de cinema sobre os seus principais heróis e atores que os interpretavam, e claro, recheados das capas-foto dos gibis que eram o sonho de consumo de todo colecionador. Uma coleção completíssima, que chegou a mais de 400 títulos, como Roy Rogers, Hopalong Cassidy, Gene Autry, John Wayne... Sua grande diversão era recortar jornais e revistas para atualizar e completar seu acervo.

Por minha vez, eu também me criei lendo e curtindo esse mundo do HQ, que é mágico e encantador. Meu primeiro trabalho, com 9 anos de idade, foi atender na banca que meu pai montou na área de casa, com gibis presos em varais com prendedores, onde negociávamos e trocávamos todo tipo de gibi – uma diversão e um estímulo ao trabalho e à leitura.

Depois, trabalhando por anos com meu pai no jornal, aprendi como se conquista o respeito e a admiração de uma população e entendi a responsabilidade que temos com tudo aquilo que criamos, escrevemos e manifestamos através de nossas palavras. Infelizmente, meu pai morreu jovem, com 45 anos, em 1995, mas seu legado permanece com cada uma das pessoas com as quais ele conviveu. O jornal “A Gaivota” ainda circulou durante mais três anos, até 1998, comigo e com minha mãe à frente desse lindo trabalho, com o qual também aprendemos muito. De fato, como meu pai dizia, o jornal nunca deu muito dinheiro mesmo - mas também nunca foi esse o seu principal objetivo. Graças à sua iniciativa, assim como ele, também nós conseguimos contribuir da melhor forma possível, respeitando nossos princípios e nossos ideais, e hoje, cada vez mais, posso sentir o quanto esse valor não tem preço.

Naiara Machado da Silva



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